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Brasil - Mercado de Livros

Queda nas vendas de publicações didáticas e concorrência do comércio virtual levam livrarias à falência

Segundo Ã?lvaro Chaves, a participação dos livros didáticos caiu de 75% para 25% nos últimos anos

A pouca representatividade da venda de livros na Bahia sempre esteve atrelada à falta de hábito de leitura da população. No entanto, fatores como a concorrência das lojas virtuais, a forte redução da venda de livros adotados pelas escolas particulares, públicas e universidades, além da queda do poder aquisitivo da classe média, têm agravado a crise do mercado livreiro em todo o Brasil. Dados da Associação Nacional de Livrarias (ANL) dão conta de que, nos últimos cinco anos, cerca de 320 livrarias fecharam as portas no país. Em Salvador, algumas livrarias vêm registrando queda de até 70% no movimento. De 2001 para cá, mais de duas dezenas de estabelecimentos pararam de funcionar na capital baiana, sendo pelo menos três deles no mês passado.

De acordo com empresários do ramo de livrarias, a diminuição brusca da venda de livros didáticos e paradidáticos se deve ao fato de muitas instituições particulares de ensino pré-escolar, fundamental e médio estarem adquirindo as publicações diretamente das editoras, para que sejam comercializadas nas próprias escolas. Além disso, muitas instituições privadas estão adotando módulos. No caso dos colégios públicos, os livros do ensino fundamental deixaram de ser vendidos, já que há alguns anos vêm sendo fornecidos gratuitamente aos alunos pelo governo, iniciativa que deve em breve se estender integralmente aos estudantes do ensino médio, que hoje também já recebem livros das disciplinas português e matemática. "Muitas livrarias sobreviviam do período escolar. Os livros didáticos e paradidáticos sempre foram um grande filão para esses estabelecimentos, chegando a representar até 75% das vendas anuais, especialmente na época de volta as aulas. Hoje, nas nossas lojas, essa fatia equivale a apenas 25% dos negócios", protesta o gerente de vendas da rede Civilização Brasileira e representante da ANL na Bahia, Ã?lvaro Chaves.

A reprodução das obras através da xerox nas universidades - tanto de capítulos quanto de livros inteiros - é a grande vilã de empresários e autores, fazendo com que os livros fiquem encalhados nas prateleiras. "Em cada três livros publicados no Brasil, um é xerocado, principalmente os técnicos e científicos", informa Chaves.

A internet e as lojas virtuais também são concorrentes de peso das livrarias. Segundo o empresário e consultor na área de tecnologia e conhecimento, Jack London, as vendas de livros em todo o mundo têm caído a uma média de 6% ao ano, por conta da chegada de novas mídias, principalmente internet, além do celular e do Ipod, entre outras. "Todos os veículos de mídia convencional, como livros, revistas e jornais, vêm registrando decréscimos significativos nas vendas, especialmente do ano passado para cá. As pessoas estão mudando seus hábitos de absorção de informação. O jornal, por exemplo, não é mais considerado um veículo de massa, é um formador de opinião de uma elite intelectual, lido hoje por menos de 5% da população brasileira", comenta o especialista, citando que, atualmente, em todo o mundo, a população de faixa etária dos 18 aos 34 anos dedica mais tempo à internet que para ver televisão.

London observa ainda que mesmo as grandes redes do setor livreiro nacional estão estagnadas, "há anos sem inaugurar novas lojas".

"As vendas pela internet hoje são o grande filão, e as empresas não podem ficar de fora desse processo. Nas lojas Americanas, por exemplo, o comércio virtual já responde por cerca de 20% das vendas do grupo", afirma.

O escritor baiano Ruy Espinheira observa que o desinteresse da população brasileira pela leitura foi reforçado pela ditadura militar, que "sucateou o ensino público de primeiro e segundo graus, suspendendo os investimentos, colocando pessoas despreparadas à frente da educação no país e retirando dos organogramas disciplinas como filosofia e sociologia, que poderiam levar as pessoas a pensar e ter senso crítico".

"O governo brasileiro não quer educar ninguém, porque quanto mais ignorante e acrítica for a população, mais os políticos corruptos e medíocres têm chances de se manter no poder", dispara.

Muito mais que a internet e as lojas virtuais, Ruy Espinheira aponta a venda de livros pelas escolas e a popularização da xerox nas universidades como os maiores inimigos do mercado livreiro. "O empobrecimento da classe média também vem contribuindo para a queda nas vendas. É lamentável essa crise, que carrega junto parte da cultura", lamenta.

Rede passa a ter apenas duas lojas

No mercado há cerca de 40 anos, a Distribuidora de Livros Salvador (Dilisa), que já chegou a contabilizar 20 lojas, vem fechando seus pontos-de-venda desde o final dos anos 90, quando, segundo o auxiliar de escritório da rede, Misael da Mota Simões, a crise se desencadeou. "Viemos registrando uma queda de 70% nas vendas, especialmente nos últimos dois anos", revela. No mês passado, mais duas unidades do grupo deixam de funcionar - as do Shopping Piedade e da Avenida Manoel Dias (Pituba) - e a empresa passa a contar com apenas duas livrarias, as dos shoppings Barra e Iguatemi.

"A crise está tão forte que não estamos com capital nem para manter os custos com as lojas, como condomínio e aluguel do ponto e energia elétrica, e com os salários dos funcionários. As demissões são inevitáveis", diz Simões, comentando que cada loja Dilisa possui uma média de dez funcionários. "Vamos fazer o possível para não fechar todos os pontos", diz.

Para o auxiliar de escritório da Dilisa, as lojas virtuais são as grandes responsáveis pela crise do setor livreiro. "Não há como concorrer. As lojas virtuais não têm custos com estrutura física, conseguem oferecer preços mais em conta e outras vantagens, como a liberação do frete", comenta.

Segundo Misael Simões, a empresa sobrevive hoje basicamente da venda dos livros "que estão na mídia, na lista dos mais vendidos" e dos artigos de papelaria e presentes. "O mercado de consumidores que têm hábito de leitura é muito pequeno. Sempre apostamos nos sucessos do momento para alavancar os negócios", declara.

Civilização fará reestruturação

A questão da educação, que envolve o hábito da leitura, é apontado pelo gerente de vendas da Civilização Brasileira e representante da Associação Nacional de Livrarias na Bahia, Ã?lvaro Chaves, como fator determinante para as restrições do setor livreiro no Brasil, especialmente na região Nordeste. Como conseqüência, avalia Chaves, as obras chegam sempre em edições limitadas, o que ajuda a tornar os livros caros no mercado nacional. "Nos últimos dez anos, a maior parte das edições lançadas no país chega limitada, com uma média de dois mil a 2,5 mil exemplares, enquanto as grandes edições têm em torno de 15 mil exemplares. Na Argentina, por exemplo, o número de publicações é menor, mas o volume de edições é muito maior que no Brasil. Esse cenário de crise do mercado de livros é muito ruim para nosso país, e especificamente para nosso estado", comenta.

A Civilização Brasileira, que tem mais de 60 anos de atuação, possui hoje dez unidades, com uma média de 12 funcionários cada. Segundo Ã?lvaro Chaves, a rede, que já teve 14 lojas (a última a fechar as portas foi a da Rua Carlos Gomes, Centro, entre 2002 e 2003), vai passar por um "processo de redimensionamento", com o fechamento de alguns pontos-de-venda deficitários e reabertura de outros. "Estamos registrando um crescimento insignificante em relação às despesas em algumas lojas. São custos que não param de subir e crescem acima da inflação. Nossas lojas do Shopping Iguatemi serão as primeiras a passar pela reformulação, ainda este ano. Uma delas será fechada, e os departamentos de livraria e papelaria ficarão reunidos num mesmo ponto", conta o gerente de vendas da rede.

Grandes Autores fecha as portas

A tradicional livraria Grandes Autores fechou no mês passado a última de suas cinco lojas, situada no Itaigara, depois de quase duas décadas de presença no mercado baiano. Segundo o proprietário da livraria, Pinras Abenhaim, a crise se iniciou em 1998, tendo se acentuado a partir de 2001. "A queda do poder aquisitivo da classe média é o maior motivo para essa crise. Professores e profissionais liberais eram bons clientes e agora não compram mais livros", diz ele, destacando que já fez cerca de 1,2 mil lançamentos de livros baianos.

Pinras Abenhaim também aponta como motivos para a decadência do mercado livreiro a diminuição da venda de livros para estudantes universitários, resultado da "febre" das fotocópias de textos e livros, as vendas via internet e a venda direta de livros pelas escolas particulares. "As obras direcionadas para os cursos de medicina, psicologia, filosofia e educação são algumas das poucas que ainda vendem. Além disso, o tempo das pessoas disponibilizado para a leitura ficou menor, porque passou a ser dedicado a mais coisas, a exemplo das novas tecnologias, como internet, DVD e TV a cabo", observa.

Abenhaim diz que a venda de livros pelos colégios particulares vem se tornando uma grande fonte de renda para esses estabelecimentos. "As escolas passaram a escolher a editora pelas vantagens que elas oferecem à instituição, como entrega em consignação, maiores prazos e descontos", conta.

Ele considera ainda que, além das livrarias, as editoras também estão partindo para o ramo das vendas virtuais, quebrando ainda mais as livrarias. "Ficou inviável concorrer. Os descontos oferecidos pela internet chegam a 30%, especialmente nos best-sellers, enquanto nossa rentabilidade bruta é de 40%. É uma concorrência predatória", diz. "Mas acredito que esses descontos sejam bons para o consumidor apenas num primeiro momento. A tendência será eles matarem a concorrência de tal forma que o consumidor vai ficar sem opções", prevê Abenhaim, que vai abrir uma cafeteria no espaço da Grandes Autores recém-fechada (Avenida Antonio Carlos Magalhães). O empreendimento será uma franquia da marca paulista Fran´s Café e está previsto para ser inaugurado em janeiro.

Fonte: Correio da Bahia



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